MAT√ČRIAS
23.09.2013
Usina transforma entulho em material de construção
CRIATIVIDADE E PIONEIRISMO

A Usifort é pioneira do Nordeste na reciclagem dos resíduos que antes eram despejados em aterros sanitários

Em 1997, o empres√°rio Marcos Kaiser levou para o Sindicato da Constru√ß√£o Civil do Cear√° (Sinduscon-CE) uma ideia que soou como ut√≥pica e sem chances de ser concretizada. Ele propunha o uso de todo o entulho das constru√ß√Ķes demolidas para a fabrica√ß√£o, ap√≥s processo de reciclagem, de novos im√≥veis.


Maquinário da usina é capaz de separar o concreto do ferro dentro da obra demolida fotos: JL Rosa

Os mais céticos chegaram a dizer que "o cara era um lunático, um louco". Passados 15 anos, o "devaneio" se transformou num rentável negócio e, o que é mais importante para a sociedade, trazendo ganhos para a natureza, que é poupada para obtenção de matéria-prima a ser usada no processo produtivo de novos materiais de construção.

Pioneira na região do Nordeste, a Usina de Reciclagem de Fortaleza (Usifort) vem expandindo suas atividades e atualmente é capaz de processar 200 toneladas de resíduos por hora.

Sem impacto

"Hoje, a Pol√≠tica Nacional de Res√≠duos S√≥lidos torna obrigat√≥rio o aproveitamento de tudo aquilo que pode ser reutilizado. Ela, portanto, tornou o re√ļso e a reciclagem obrigat√≥rios. Em rela√ß√£o aos entulhos, os ganhos s√£o expressivos pois, al√©m de evitarmos novas interven√ß√Ķes danosas na natureza, evitamos, por exemplo, o impacto de mais caminh√Ķes rodando, gastando combust√≠vel e produzindo mon√≥xido de carbono", explica.


Através do uso de tratores, o entulho, já parcialmente triturado, é encaminhado até uma pulverizadora a fim que os diversos materiais sejam segregados

A Usifort, localizada no quil√īmetro seis da BR-116, tem estocado 300 mil metros c√ļbicos de res√≠duos resultantes de demoli√ß√Ķes. O montante √© suficiente para a constru√ß√£o de 50 mil casas, segundo Marcos Kaiser. Com o que um dia foi tratado como entulho ou lixo, a usina fabrica uma linha de produtos ecol√≥gicos que inclui a brita, concreto, brita corrida, meio-fio, manilhas, boca-de-lobo, estacas, tampa para bueiros, p√≥ de pedra e multimistura.

Tijolo ecológico

Al√©m desses itens, um dos carros-chefe da empresa √© o tijolo ecol√≥gico. Ele √© feto do chamado res√≠duo classe "A" reciclado e misturado ao cimento. √Č prensado e curado, no m√≠nimo, por um per√≠odo de sete dias. O processo n√£o utiliza a queima de lenha. Marcos assegura que "ele pode ser utilizado em qualquer tipo de edifica√ß√£o, principalmente onde se busca rapidez, o menor custo e a beleza no acabamento".

A prática de recolher o entulho para reciclar na usina está dando lugar ao trabalho in loco. Graças à aquisição de um equipamento chamado pulverizador, capaz de fazer a separação do resíduo -concreto e ferro- na própria obra demolida e, através da unidade móvel de britagem, construir os tijolos. "A prensa hidráulica de blocos ecológicos nos permite não retirar um só grão de areia da natureza e não queimar nenhuma árvore, evitando soltar monóxido de carbono na natureza", destaca o empresário Marcos Kaiser.


O tijolo ecol√≥gico √© todo feito a partir do material que foi reciclado das constru√ß√Ķes demolidas e pode ser utilizado em qualquer tipo de edifica√ß√£o

Uma máquina chamada britadora/impactadora facilita o trabalho. Ela recebe o entulho, realiza a separação magnética do ferro e produz o agregado reciclado que vai ser usado para a confecção dos produtos. O plástico e a madeira que são separados no processo de reciclagem são encaminhados às cooperativas que trabalham com esses resíduos.

Gesso

Outro material que está sendo aproveitado em parte é o gesso. Sua destinação é o campo. "Pode ser utilizado como corretivo do solo. Exceto se tiver sido pintado. Nesse caso, por enquanto, não tem jeito, já que a tinta pode contaminar o solo por ocasião do período chuvoso".

Para se ter uma ideia da precisão com que tudo é devidamente segregado, é possível encontrar na usina grande quantidade de paralelepípedos retirados das ruas antigas de Fortaleza, como a Barão do Rio Branco, por exemplo. Alguns deles, a julgar pelo tamanho- um pouco maior do que os convencionais-, são da época do Império.

Ocupando uma área de 30 mil metros quadrados, a usina negocia com a Prefeitura um espaço maior, de 50 mil metros quadrados. "O nosso objetivo é manter todo o resíduo produzido aqui mesmo na Cidade. Transferi-lo para outro local, além do impacto com o transporte indevido causa perda de arrecadação, pois os impostos pagos iriam para outra prefeitura", frisa Kaiser.

Apartamentos

No local onde funciona hoje a Usifort, existe projeto para a constru√ß√£o de 580 apartamentos totalmente ecol√≥gicos. "Al√©m do material usado na edifica√ß√£o dos im√≥veis, seu funcionamento ser√° dos mais sustent√°veis. A ideia √© reaproveitar todo tipo de res√≠duo que for gerado, inclusive os org√Ęnicos, que alimentar√£o um biodigestor que vai gerar o g√°s para consumo dos pr√≥prios moradores, al√©m do re√ļso da √°gua, somente para citar dois exemplos".

Presidi√°rios

Outra prática da usina que está sendo renovada é o uso da mão de obra de ex-presidiários. "Estamos em negociação com o Conselho Nacional de Justiça para firmarmos um convênio para ressocialização daquelas pessoas condenadas a cumprir penas alternativas. Essa é uma tradição nossa. Por aqui já passaram cerca de 50 ex-presidiários. A nossa ideia é colocar para trabalhar mais de mil deles na construção civil", revela.

A empresa planeja a expans√£o dos neg√≥cios. Est√° prestes a abrir uma outra sede, desta feita, na Regi√£o Metropolitana de Fortaleza (RMF), mais precisamente, no munic√≠pio de Caucaia. Uma √°rea de aproximadamente 30 mil metros quadrados est√° sendo negociada com a Prefeitura local, √†s margens da BR-020, no quil√īmetro dois.

Dentre as principais obras realizadas em Fortaleza nos √ļltimos anos com a participa√ß√£o da Usifort, podemos citar o rec√©m inaugurado Centro de Feiras e Eventos, a Central de Pequenos Neg√≥cios (novo Beco da Poeira) e a Avenida Maestro Lisboa.

Estoque

300 mil metros c√ļbicos de res√≠duos s√≥lidos (entulhos) est√£o estocados na Usifort, o suficiente para bancar a constru√ß√£o de nada menos que 50 mil moradias

FERNANDO MAIA
REP√ďRTER   Fonte: Jornal Diario do Nordestehttp://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1177752